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PAI E FILHOS: UMA RELAÇÃO COMPLEXA

A relação entre pai e filhos vem ao longo do processo evolutivo se transformando significativamente, fazendo com que o papel de pai ganhe novos contornos no construto familiar e social. De início, os conceitos freudianos, descritos em Totem e Tabu eram mais aceitos pela academia científica. Neles é postulado o “Complexo de Édipo” como causador do parricídio arcaico que está na base fundante das famílias e, por extensão, das sociedades. Isso porque, para Freud, a relação conflituosa entre filho e pai se torna um fator gerador de um profundo sentimento de culpa nos filhos, embalados pelos desejos inconscientes ou conscientes em eliminar o pai rival e castrador. Essa situação acaba transformando o pai eliminado em símbolo de adoração, produzindo nos filhos uma intensa e permanente necessidade de reparação, muitas vezes manifesta nos ritos e mitos religiosos. Com isso, percebe-se que a relação entre pai e filhos sempre vem marcada por fortes tensões, porque todo pai já foi filho e todo filho tem no seu íntimo, um pai em potencial.

         Da dinâmica edípica, ainda segundo a psicanálise freudiana, é que se originou o sistema totêmico, onde se institui a adoração de um totem e a aceitação das interdições evitando o incesto. Por isso, é que a família depende de um pai exercendo funções de separação, limites, interdições e regras. Paralelamente, a família é um sistema social aberto no qual o ser humano é inserido quando de seu nascimento, mudando com o passar do tempo em função das alterações do número de membros ou modificações biopsicossociais dos mesmos.

         Nas últimas décadas a paternagem vem se transformando devido ao crescente número de separações e divórcios, a família moderna abriga agora não somente os filhos do próprio casal como também os de suas outras uniões. A educação, por sua vez, também acabou sofrendo transformações. Tornou-se mais permissiva, aceitando-se que os filhos tenham vontade própria, muitas vezes contrariando os pais. Porém, os pais outrora reprimidos perderam a noção do que é estruturante e do que é apenas coercitivo, começaram a ser permissivos por deixarem de exercer as funções básicas do patriarcado. Passaram da repressão extrema para a liberdade excessiva, desembocando em um “vale tudo” caótico. Assim, os limites tão necessários ao desenvolvimento do senso de realidade e ética, com atitudes de respeito aos outros, tornaram-se desconsiderados e muitas vezes até julgados prejudiciais ao crescimento dos filhos.

         Tudo isso associado a uma noção errônea dos pais em tentarem resguardar, ao máximo, os filhos de situações de responsabilidade.  Talvez numa tentativa de amenizar os sentimentos de culpa pela pouca presença ou disponibilidade que os pais tem para se dedicarem a eles. Experiências de vida e fazeres domésticos também deixaram de fazer parte do desenvolvimento dos jovens contemporâneos. Além disso, com a escalada da mulher no mercado de trabalho, os papéis do pai também se modificaram, tanto na função de provedor como na de educador. A família, sem dúvida, perdeu o seu perfil tradicional e as representações tradicionais de masculinidade e paternidade também.

         Atualmente existe uma enorme diversidade de modelos masculinos advindos da pluralidade de suas vivências e das diferentes inserções social, política, econômica e cultural. Porém, parece que quanto maior a escolaridade dos pais ganha mais espaço e valor os aspectos afetivos da relação com seus filhos (as). Concomitantemente, as funções de pai provedor vão ficando mais esmaecidas. Mesmo assim, o momento atual está contribuindo para que o pai se torne mais ausente ou distante, física e/ou psicologicamente. Isso, consequentemente, deixa os filhos carentes de pai com poucas capacidades de se situarem nas dimensões do belo do bom e do verdadeiro, fazendo com que eles se entreguem para a busca hedônica do prazer imediato e ao culto do corpo, totalmente submissos à cultura e educação de massa.

         O pai enfraquecido e a mãe desfeminilizada são fatores preocupantes da nossa cultura contemporânea. Isso vem criando distúrbios nas relações de meninos e meninas na busca de relação com o sexo oposto. Ambos sentem medo, as meninas por não poderem confiar no modelo masculino e os meninos pela falta de um modelo para se identificarem. Essa situação só poderá ser minimizada quando a paternagem voltar a ser exercida de forma clara e firme. Ou seja, quando os pais conseguirem resgatar o papel estruturante de estabelecer limites e regras, numa atitude de respeito e de amor.

            É a força do pai que deveria fornecer aos filhos as condições mediadoras entre o núcleo familiar e o excitante e assustador mundo exterior. Suas atitudes podem contribuir para que os filhos temam ou se lancem “loucamente” para o contexto social. Em contrapartida é na maternagem que os filhos deveriam encontrar alimento e proteção, ritmo e cuidado.  Porém, com uma paternagem comprometida os filhos terão baixa autoconfiança, medo de enfrentarem a vida podendo se tornar presas fáceis de subterfúgios ou aditivos externos para superar a insegurança interna. O pai que deveria dar aos filhos a capacidade de “penetrar” conscientemente no mundo desconhecido, quando enfraquecido, lança os filhos à sorte do destino, tornando-os reativos, agressivos e inconseqüentes com o futuro e com a ética.

         Desta forma, a superação desta situação exige uma retomada de atitude paterna que, no meu modo de pensar, deveria acontecer de forma sincronizada com a recuperação da feminilidade. Ou seja, os pais precisam resgatar os princípios masculinos assim como as mães os princípios femininos. Quem sabe, com isso, uma nova forma de consciência integral possa surgir, com filhos menos imediatistas e inseguros associado a um maior compromisso e responsabilidade social e ambiental. Obviamente, essa situação acarretaria menos poder do Estado e do mercado e maior poder da família nos rumos evolutivos da humanidade.

         Então, para comemorar, ou seja, memorar com, o dia dos pais é preciso que se chame para a memória das pessoas a real importância da relação dialética entre pais e mães, e dos princípios masculinos e femininos com respeito e amor. Quem sabe assim um dia poderemos comemorar o dia da família inserida na dinâmica da alteridade, por ter superado e integrado os antigos domínios do matriarcado e o patriarcado. Não só a família nuclear, mas também a grande família global da humanidade, onde não existirá mais exclusão de espécie alguma.

* WALDEMAR MAGALDI FILHO (www.waldemarmagaldi.com). Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, DAC – Dependências, abusos e compulsões, Arteterapia e Expressões Criativas e Formação Transdisciplinar em Educação e Saúde Espiritual do IJEP em parceria com a FACIS. wmagaldi@gmail.com

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