METANÓIA NA PSICOLOGIA JUNGUIANA

11 de abril de 2018

Metanóia é uma palavra grega formada pelo prefixo: meta, com sentido de: o que está além, o que transcende, e pelo sufixo: noia, um verbo com sentido de: pensar, razão, compreensão ou entendimento, muito próximo da palavra greganous que pode ser traduzida como consciência. Portanto, metanóia pode significar: expansão da consciência, ir além da razão lógica, transcender, converter-se, ter mudança de crenças ou visão de mundo.

Na realidade, o objetivo da análise junguiana é o de promover a metanóia em seus clientes, por meio do confronto dialético com as polaridades intrapsíquicas, porque essa tensão estimula aspectos criativos, favorecendo o surgimento da função transcendente, que patrocina a vivência da metanóia.  Vale lembrar que ninguém tem a capacidade de modificar ninguém, mas ninguém consegue modificar-se sozinho, porque é na relação com o outro que acontecem as modificações, e isso nos remete a essa bela frase de Herman Hesse: “Nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo e isso é tudo”.

Nas etapas da vida humana, existem determinados momentos que, naturalmente, ficamos mais expostos à ocorrência da metanóia, que é a crise da transição. Infelizmente, atualmente, esses momentos deixaram de ser vivenciados coletivamente na forma de ritos de passagens, demarcando esse momento de grande importância na vida de todas as pessoas. De forma equivocada, muitos estudiosos de Jung acabam associando a metanóia apenas com a crise da meia idade. É obvio que, nesta etapa da vida, por conta da chegada da segunda metade da vida e à proximidade da morte, ficamos muito mais suscetíveis a empreender mudanças de valores, ficando mais fácil abrir mão da materialidade e demandas territoriais, para que a dimensão da espiritualidade fique mais importante na vida.

A metanóia exige uma espécie de transgressão, por provocar muitas transformações tanto nos comportamentos quanto no pensamento e no caráter das pessoas, produzindo rompimentos de valores, relacionamentos e até de visão de mundo. Muitas vezes surge na forma de crise e queixas, fazendo com que os indivíduos repensem seu existir. Sendo que, na base dessa crise, está a experiência simbólica de morte e de renascimento.

Nosso sistema educacional deforma os alunos, interdita e até pune a criatividade genuína, porque ela incomoda e atrapalha o aparelho alienante. Recrimina a capacidade de duvidar, impede a ousadia e a produção artística, roubando a alegria e a diversão do aprender e transformar, evitando que a espontaneidade da nossa essência se manifeste. Somos treinados a usar nossa memória como depósito de informações e, para não perdê-las, não podemos refletir, perceber fora do quadrado, sentir, pensar ou intuir. Precisamos acumular diplomas para falar de assuntos lógicos. Aprender a sabedoria da alma, com o propósito de atingir nossa meta de união com o absoluto, é quase um crime. Porque neste estado teremos impulsos de amar e servir e isso é ruim para o sistema alienante de consumo, acúmulo, dívidas e trabalho sem sentido e significado. Aprendemos a conter as emoções e, com isso, a ficarmos cada vez mais neuróticos, consumindo toda sorte de substâncias psicoativas com intuito de aliviar a angústia e esperar a morte chegar. Para romper esse ciclo é necessária uma crise que produza a metanóia.

A superação da crise da metanóia, para mim, acontece quando a pessoa consegue ressignificar sua persona, por meio de um desmascaramento das personagens habitualmente usadas nas relações interpessoais até então, e confrontar sua sombra, representante do inconsciente e de todas as dimensões negadas, reprimidas ou indiferenciadas, saudáveis ou patológicas existentes no âmago de todos nós. Só assim que o ego, que atua como gestor da consciência e mediador da contínua tensão opositiva entre persona e sombra, poderá encontrar o entusiasmo em servir ao si mesmo e, consequentemente, ao outro. Por isso, a individuação é uma meta coletiva proposta por Carl Jung, que depende da função transcendente advinda da superação criativa da crise da metanóia, principalmente quando acontece após a segunda metade da vida.

Waldemar Magaldi Filho, Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas, oferecidos pelo IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa  –  www.ijep.com.br


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